Os números não mentem, e eles são assustadores. Documentos da Receita Federal, entregues à CPI do Crime Organizado no Senado, comprovam que o Banco Master transferiu exatamente R$ 80.223.653,84 para o escritório de advocacia Barci de Moraes Sociedade de Advocacia. A proprietária do escritório é Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O escândalo explodiu em abril de 2026, quando os detalhes foram tornados públicos durante as audiências da comissão presidida pelo senador Sergio Moro.
O que acontece aqui vai muito além de uma simples nota fiscal. Estamos falando de pagamentos mensais fixos de R$ 3,6 milhões, realizados ininterruptamente por 22 meses — de fevereiro de 2024 até novembro de 2025. O fluxo só parou porque o Banco Central do Brasil determinou a liquidação do banco, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, atualmente preso.
A confirmação após a negação inicial
A narrativa mudou drasticamente nos últimos meses. Quando o jornal O Globo revelou inicialmente a existência do contrato em dezembro de 2025, baseado em documentos do celular de Vorcaro, o escritório reagiu com veemência. Em uma nota oficial, afirmaram que "não confirmam essas informações" e as classificaram como "incorretas e vazadas ilicitamente", invocando o sigilo fiscal.
Mas a realidade dos documentos fiscais é implacável. No início de maio de 2026, frente às provas irrefutáveis apresentadas pela CPI, o escritório Barci de Moraes admitiu ter mantido o contrato. A admissão veio tarde demais para evitar o impacto político, mas foi crucial para validar os dados da Receita Federal. O contrato original previa 36 meses de pagamentos, totalizando cerca de R$ 129 milhões. No entanto, a intervenção do Banco Central truncou esse plano, interrompendo os repasses em novembro de 2025.
O contexto financeiro: R$ 543 milhões em advogados
Para entender a magnitude, precisamos ampliar a lente. O Banco Master não contratou apenas um escritório. Entre 2022 e 2025, o banco pagou mais de R$ 543 milhões a 91 diferentes escritórios de advocacia. Dos quais, 15 receberam valores superiores a R$ 10 milhões cada.
- Barci de Moraes: Recebeu R$ 80,2 milhões (média de R$ 40,1 mi/ano).
- Escritórios de Walfrido Warde: Receberam R$ 76,6 milhões entre 2022 e 2025.
- Gabino Kruschewsky Advogados Associados: Recebeu R$ 54 milhões no mesmo período.
A média anual de R$ 40 milhões para um único escritório é astronômica, mesmo considerando casos complexos. Isso levanta perguntas sobre a natureza dos serviços prestados. Era apenas consultoria jurídica ou havia outras motivações por trás desses contratos de longo prazo?
Reações e investigações paralelas
O presidente da CPI, Sergio Moro, deixou claro o objetivo das investigações em coletiva em Brasília, em 8 de abril de 2026. Segundo ele, os documentos são "fundamentais para entendermos as relações entre instituições financeiras irregulares e escritórios de advocacia de alto nível". A sugestão é clara: esses escritórios podem estar servindo como estrutura para movimentações financeiras opacas.
Enquanto isso, o gabinete do ministro Alexandre de Moraes manteve silêncio estratégico, informando à imprensa que "o ministro não comenta questões que envolvem familiares". Essa postura, comum em situações delicadas, não impede que a investigação avance. O advogado-geral da União, Jorge Messias, confirmou que o Ministério Público Federal (MPF) já abriu inquérito próprio para apurar a regularidade desses contratos, incluindo especificamente o caso do escritório de Viviane Barci de Moraes.
O Banco Central justificou a liquidação do Banco Master em novembro de 2025 citando "graves irregularidades na gestão" e "risco sistêmico à economia nacional". A conexão entre a falência do banco e os pagamentos milionários a advogados cria um cenário de suspeita difícil de dissipar sem uma auditoria detalhada dos serviços efetivamente prestados.
O que esperar da CPI?
A CPI do Crime Organizado, instalada em 15 de fevereiro de 2026, tem previsão de encerrar seus trabalhos em 30 de junho de 2026. Há possibilidade de prorrogação por mais 60 dias se o plenário do Senado aprovar. Os próximos meses serão decisivos. Depoimentos de ex-funcionários do Banco Master, auditores independentes e talvez até os próprios advogados envolvidos poderão esclarecer se houve ilegalidade ou se tratava-se de uma estratégia defensiva agressiva — ainda que questionável — do banco.
Perguntas Frequentes
Quanto o escritório de Viviane Barci de Moraes recebeu do Banco Master?
O escritório recebeu um total de R$ 80.223.653,84. Esse valor foi pago através de 22 transferências mensais fixas de R$ 3.646.529,72, ocorridas entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. O pagamento cessou devido à liquidação do banco ordenada pelo Banco Central.
Por que o Banco Master foi liquidado?
O Banco Central do Brasil determinou a liquidação do Banco Master em 15 de novembro de 2025. A justificativa oficial apontou graves irregularidades na gestão da instituição financeira e um risco potencial à estabilidade do sistema econômico nacional. O controlador do banco, Daniel Vorcaro, encontra-se preso.
Outros escritórios de advocacia também receberam grandes valores?
Sim. Documentos revelam que o Banco Master pagou mais de R$ 543 milhões a 91 escritórios entre 2022 e 2025. Além do escritório de Viviane Barci de Moraes, os escritórios ligados a Walfrido Warde receberam R$ 76,6 milhões e o Gabino Kruschewsky Advogados Associados recebeu R$ 54 milhões no mesmo período.
Qual é o papel do MPF nessa investigação?
O Ministério Público Federal (MPF), sob orientação do advogado-geral da União Jorge Messias, abriu uma investigação independente para apurar a legalidade dos contratos e pagamentos realizados pelo Banco Master. O foco inclui verificar se os serviços jurídicos contratados correspondiam aos valores pagos e se houve qualquer forma de lavagem de dinheiro ou desvio de recursos.
Quando a CPI do Crime Organizado deve terminar seu trabalho?
A CPI, presidida pelo senador Sergio Moro, tem previsão de conclusão em 30 de junho de 2026. No entanto, o mandato pode ser estendido por mais 60 dias mediante aprovação do plenário do Senado Federal, dependendo da complexidade das descobertas e da necessidade de novos depoimentos ou diligências.